Na capela do
Santíssimo Sacramento ou participando das comemorações de Corpus Christi a
gente às vezes se pergunta : Mas como? Como pode ser que ali, naquela hóstia,
esteja, conforme afirma a nossa fé católica, o corpo de Cristo?
Lembro-me de
uma história verídica.
No século
passado, um bispo de Minas fazia uma visita pastoral ao interior, muito
interior. Um dia teve que permanecer numa fazenda.
Lá lhe
contaram que ali perto residia uma menininha, de 7 anos apenas, que, mesmo
sendo tão jovem, sabia muito bem o
catecismo , aquele simplificado, todo feito de perguntas e respostas.
O bispo se
interessou e trouxeram-lhe Eva, assim se chamava a menininha.
Depois de
constatar que ela, de fato, se diferenciava dos demais no conhecimento do
catecismo, o bispo lhe perguntou:
- Quem está
na hóstia consagrada?
- Jesus
Cristo, em corpo , sangue, alma e divindade.
Aí o bispo
apertou o cerco:
- Mas
como pode estar, se Jesus é tão grande e
a hóstia tão pequenininha?
Ao que ela
tranqüila e imediatamente respondeu:
- Como eu
não sei, mas que está , está !
Nós, como a
menininha Eva, afirmamos categoricamente a presença real de Jesus Cristo na
hóstia consagrada.
Mas não é
ilícito buscar um entendimento disto, se não um entendimento completo, pelo menos uma luz que ilumine, na medida do
possível e sem ferir a fé, um pouco desse mistério.
Penso,
porém, que o entendimento buscado deve ter fundamento, em primeiro lugar na
própria fé e, se for possível, em alguma coisa da razão.
Comecemos
nos lembrando de que, tanto quanto sabemos pela fé, o desejo do Criador é unir-se
à criatura. Temos mesmo, na Sagrada Escritura, vários indícios disto : o Senhor
passeava pelo Éden em companhia de Adão e Eva “à brisa da tarde”; em Pv 8,31
lemos que “ a minha alegria é estar com os filhos dos homens” e todo o Cântico dos Cânticos, são alguns exemplos
desse gosto do Senhor em estar conosco.
Santo Afonso
de Ligório percebeu e comentou este fato dizendo : “O paraíso de Deus é o
coração do homem”.
A Igreja
como todo também o percebeu e no Credo niceno-constantinopolitano assim se expressou: “Creio no único senhor
Jesus Cristo (...), que por nós homens e pela nossa salvação, desceu dos céus”.
Observe-se
que não foi só pela nossa salvação, mas “ por nós”, seres humanos, ou seja,
isto expressa o empenho de Deus em reatar as relações de amizade com todos e a
todos preparar para a definitiva união com ele.
Tal união,
efetiva, se realizou de modo pleno em Jesus ressuscitado, quando o homem Jesus
já não estava mais desunido de Deus, mas , ao contrário,de tal modo a Ele se
unira que adquirira caracteres especiais.
A fé nos
garante que na hóstia se encontra não o corpo do Jesus que circulou pelos
caminhos da Palestina mas sim o corpo do Jesus ressuscitado, ou seja, o corpo de
Jesus já transformado (como diz São Paulo) e misteriosamente integrado na eternidade e na transcendência de
Deus.
O corpo de
Jesus ressuscitado foi objeto de experiência dos apóstolos e de outros
discípulos e até de algum não-discípulo, como São Paulo.
Nessas
experiências, que nos chegaram pela Tradição e pelo testemunho do Segundo Testamento,
aí é que devemos procurar, primeiro, alguma compreensão do que possa ser o
corpo ressuscitado.
Contam os
Evangelhos que Jesus ressuscitado continuou esporadicamente visível aos
apóstolos e a discípulos, às vezes numa forma dramática, como a Tomé, às vezes
numa forma “natural” como aos de Emaus. Parece-me que tais modos de
apresentação é que pressupõem uma espécie de “participação” na transcendência
de Deus, sem o que, aliás, seria muito difícil pensar que Deus teria
“conseguido” seu desejo de “estar com os filhos dos homens”(Pr 8,31).
Transformado
na ressurreição, após 40 dias despediu-se dos seus para estar com todos nós, no
mistério do Cristo cósmico, no mistério da Igreja e no mistério da Eucaristia.
Ele
prometera estar todos os dias conosco,
até o final dos tempos. Para tanto, já dissera (para escândalo de uns,
preocupação de outros e esperança de uns poucos) que seu corpo viria a ser verdadeira comida.
Depois, na
véspera da paixão, enuncia que “isto (o pão ) é meu corpo”.
Não diz
“representa” ou “é símbolo” ou “é imagem do meu corpo”, mas “É O MEU
CORPO”.
Coisa
extraordinária ! Ele escolhe o pão, alimento universal, grandemente responsável
pela fixação do homem, nômade até há 10.000
anos, grandemente responsável pelo nascimento das cidades.
E tornando-se
misteriosamente mas realmente presente no pão consagrado torna possível o
cumprimento da promessa de permanecer conosco.
(Como diz
São Paulo, “ o amor de Cristo nos constrange”).
Olhando a
hóstia consagrada, continuo dependendo da minha fé, mas tal é a consistência do
conjunto de informações legadas nos Evangelhos e na Tradição, que eu, livre e
alegremente, confesso como Tomé quando colocou a mão nas feridas do
Ressuscitado : ”Meu Senhor e meu Deus”.