quarta-feira, 30 de maio de 2012

O CORPO DE DEUS


Na capela do Santíssimo Sacramento ou participando das comemorações de Corpus Christi a gente às vezes se pergunta : Mas como? Como pode ser que ali, naquela hóstia, esteja, conforme afirma a nossa fé católica, o corpo de Cristo?

Lembro-me de uma história verídica.

No século passado, um bispo de Minas fazia uma visita pastoral ao interior, muito interior. Um dia teve que permanecer numa fazenda.

Lá lhe contaram que ali perto residia uma menininha, de 7 anos apenas, que, mesmo sendo  tão jovem, sabia muito bem o catecismo , aquele simplificado, todo feito de perguntas e respostas.

O bispo se interessou e trouxeram-lhe Eva, assim se chamava a menininha.

Depois de constatar que ela, de fato, se diferenciava dos demais no conhecimento do catecismo, o bispo lhe perguntou:

- Quem está na hóstia consagrada?

- Jesus Cristo, em corpo , sangue, alma e divindade.

Aí o bispo apertou o cerco:

- Mas como  pode estar, se Jesus é tão grande e a hóstia tão pequenininha?

Ao que ela tranqüila e imediatamente  respondeu:

- Como eu não sei, mas que está , está !

Nós, como a menininha Eva, afirmamos categoricamente a presença real de Jesus Cristo na hóstia consagrada.

Mas não é ilícito buscar um entendimento disto, se não um entendimento completo,  pelo menos uma luz que ilumine, na medida do possível e sem ferir a fé, um pouco desse mistério.



Penso, porém, que o entendimento buscado deve ter fundamento, em primeiro lugar na própria fé e, se for possível, em alguma coisa da razão.

Comecemos nos lembrando de que, tanto quanto sabemos pela fé, o desejo do Criador é unir-se à criatura. Temos mesmo, na Sagrada Escritura, vários indícios disto : o Senhor passeava pelo Éden em companhia de Adão e Eva “à brisa da tarde”; em Pv 8,31 lemos que “ a minha alegria é estar com os filhos dos homens” e todo o  Cântico dos Cânticos, são alguns exemplos desse gosto do Senhor em estar conosco.

Santo Afonso de Ligório percebeu e comentou este fato dizendo : “O paraíso de Deus é o coração do homem”.

A Igreja como todo também o percebeu e no Credo niceno-constantinopolitano  assim se expressou: “Creio no único senhor Jesus Cristo (...), que por nós homens e pela nossa salvação, desceu dos céus”.

Observe-se que não foi só pela nossa salvação, mas “ por nós”, seres humanos, ou seja, isto expressa o empenho de Deus em reatar as relações de amizade com todos e a todos preparar para a definitiva união com ele.

Tal união, efetiva, se realizou de modo pleno em Jesus ressuscitado, quando o homem Jesus já não estava mais desunido de Deus, mas , ao contrário,de tal modo a Ele se unira que adquirira caracteres especiais.

A fé nos garante que na hóstia se encontra não o corpo do Jesus que circulou pelos caminhos da Palestina mas sim o corpo do Jesus ressuscitado, ou seja, o corpo de Jesus já transformado (como diz São Paulo) e misteriosamente  integrado na eternidade e na transcendência de Deus.

O corpo de Jesus ressuscitado foi objeto de experiência dos apóstolos e de outros discípulos e até de algum não-discípulo, como São Paulo.

Nessas experiências, que nos chegaram pela Tradição e pelo testemunho do Segundo Testamento, aí é que devemos procurar, primeiro, alguma compreensão do que possa ser o corpo ressuscitado.

Contam os Evangelhos que Jesus ressuscitado continuou esporadicamente visível aos apóstolos e a discípulos, às vezes numa forma dramática, como a Tomé, às vezes numa forma “natural” como aos de Emaus. Parece-me que tais modos de apresentação é que pressupõem uma espécie de “participação” na transcendência de Deus, sem o que, aliás, seria muito difícil pensar que Deus teria “conseguido” seu desejo de “estar com os filhos dos homens”(Pr 8,31).

Transformado na ressurreição, após 40 dias despediu-se dos seus para estar com todos nós, no mistério do Cristo cósmico, no mistério da Igreja e no mistério da Eucaristia.

Ele prometera  estar todos os dias conosco, até o final dos tempos. Para tanto, já dissera (para escândalo de uns, preocupação de outros e esperança de uns poucos) que seu corpo viria a ser  verdadeira comida.

Depois, na véspera da paixão, enuncia que “isto (o pão ) é meu corpo”.

Não diz “representa” ou “é símbolo” ou “é imagem do meu corpo”, mas   “É  O MEU CORPO”.

Coisa extraordinária ! Ele escolhe o pão, alimento universal, grandemente responsável pela fixação do homem, nômade até há 10.000  anos, grandemente responsável pelo nascimento das cidades.

E tornando-se misteriosamente mas realmente presente no pão consagrado torna possível o cumprimento da promessa de permanecer conosco.

(Como diz São Paulo, “ o amor de Cristo nos constrange”).

Olhando a hóstia consagrada, continuo dependendo da minha fé, mas tal é a consistência do conjunto de informações legadas nos Evangelhos e na Tradição, que eu, livre e alegremente, confesso como Tomé quando colocou a mão nas feridas do Ressuscitado : ”Meu Senhor e meu Deus”.

domingo, 20 de maio de 2012

A EVOLUÇÃO NÃO PAROU. MAS... ONDE ESTAMOS ?


Ciência e fé não se opõem. E até convergem num ponto fundamental : nas origens. Talvez convirjam também no ponto final...

De fato, o que constitui a origem para a ciência e para a fé parece ser algo comum às duas.

 Para a ciência, quanto mais se afasta do presente na direção da origem, mais o real se lhe apresenta como um “fundo” de energia difusa permeando todo o Universo, “fundo” este que, conforme  racionalmente demonstrou Aristóteles , transcende em natureza o próprio Universo (vide a demonstração no livro 8 de sua  “Física”).

Para a fé, um Ser transcendente à ordem física dá origem e sustenta toda a mesma ordem física.

Assim, ciência (razão) e fé chegam, quanto à origem do real, a uma idéia comum : a razão de ser do Universo transcende o próprio Universo.(Isto não quer dizer nem que a ciência deva parar na sua pesquisa das origens nem que a fé deva abandonar o trabalho teológico).

Daí  p’ra  frente religião e ciência enxergam o que todos  enxergam : um mundo de energia e partículas sub-atômicas  ao qual se segue, evolutivamente, o aparecimento da terra, o aparecimento das grandes e complexas moléculas,  aparecimento da vida, dos seres vivos superiores (animais e vegetais), dos grandes símios, do homem primitivo, de outras raças humanas, do  homo sapiens  e, como conseqüência , das grandes civilizações antigas, primeiro as bárbaras e depois as mais  civilizadas.

E em seguida?

Em seguida, o longo  e duro esforço de encontrar uma vida individual e socialmente melhor.

  estamos nós, no meio desse esforço. E somos nós, e não as pedras, que desejamos vida melhor e também somos nós  que  percebemos, no fundo de nós mesmos, o que possa ser “vida melhor”.

Conto como certo o seguinte : qualquer pessoa que viva em paz consigo mesma e viva num clima social de concórdia e justiça, se dá por feliz ou quase feliz.

Se eu estiver certo nessa hipótese,  então poderei dizer que a humanidade se desloca evolutivamente na direção dessa meta, porque me parece muito provável que a força desse desejo coletivo (mesmo que às vezes inconsciente ou parcialmente consciente) vá, paulatinamente, vencendo barreiras. E isso não me parece uma ilusão, porque se por um lado vemos crescer desajustes, injustiças e crimes de toda ordem, por outro vemos crescer movimentos que apontam para uma paz individual e uma  concórdia futuras.

Os que efetivamente buscam a paz individual (interior) e a concórdia social  JÁ pertencem à raça futura. E quem são esses, senão os chamados  “homens e mulheres de boa vontade”?

Então, de novo, onde estamos na evolução?

Alguns  e algumas já vivem no presente uma forma de futuro, na medida mesma em que  se empenham em encontrar a paz individual e a concórdia coletiva. Mas estes permeiam a totalidade da massa humana  e muito frequëntemente veem forçadas as portas de sua paz e rompidos os muros da sua concórdia.

A evolução não parou e nós, os humanos, somos, tanto quanto sabemos,   a linha de frente, a seta do misterioso esforço universal na direção da vida perfeita.

Porém a vida perfeita reside tão somente naquele Ser transcendente de que já falamos, ou , dito de outra forma, não há forma de  vida conhecida  que independa quanto à origem e quanto à manutenção, da atividade daquele Ser transcendente.  Assim a seta da evolução se encaminha para Ele.

A diferença entre o começo e o fim consiste no fato de que no começo tudo existia nEle de forma potencial, e no fim, sob forma factual : por intermédio dos humanos  toda a criação chegará a  se unir livre e conscientemente ao Criador.

Entre o começo e o fim estamos nós. Incorporamos existencialmente a seta da evolução. Perfeições já conquistadas e deficiências  a descartar coexistem e interagem.

COMPREENDER E SUPORTAR este momento histórico da evolução  é a vivência atual da raça futura.

CRER, ESPERAR E CONSTRUIR A PAZ E A CONCÓRDIA, isto é o papel atual da raça futura.

domingo, 6 de maio de 2012

O SENTIDO DA VIDA (ou “A cajuína cristalina em Teresina )


A arte é um espanto. Encontra formas insuspeitadas de expressão de sentimentos. Caetano Veloso reagiu à morte de um amigo compondo (desabafando a dor e a perplexidade) sua música-poema “ Cajuina ”.

A primeira frase é precisamente esta :

“Existirmos, a que será que se destina?”

Esta pergunta ronda nossas noites e, de modo especial, nossos momentos de sofrimento. Ronda ainda nossos momentos de reflexão mais profunda.

Olhamos o mundo em torno de nós, um vasto universo que parece não ter limite, belezas que não aceitam descrições porque sempre as ultrapassam, mas também espaços de dores que pensamos insuportáveis.

Olhamos o mundo dentro de nós e...  situação análoga.

Paramos  e pensamos : “Existirmos, a que será que se destina?”

Às vezes  até nos sentimos bem e tranquilos, outras vezes...  “a que será que se destina?”.

Mas a arte de Caetano entreviu o núcleo da questão. A interrogação recai no “destina”, já que o destino de cada coisa é que tanto explica quanto justifica cada passo, cada etapa de cada coisa.

Me lembro de que nosso pequeno catecismo (antigão), de perguntas e respostas, feitos p’ra se instruir na fé a criançada,  respondia : existimos para conhecer, amar e servir a Deus.

Crescemos, e aquela resposta simples recebeu cores mais fortes e estrutura mais consistente, em função da  nossa reflexão, nossa experiência, nosso convívio com outros, nosso conhecimento mais extenso e mais profundo  da vida e da fé.

E a que foi que chegamos ?

O livro do Gênesis conta que Deus  passeava no jardim do Éden, à brisa da tarde, e , com toda certeza, convivia muito amigavelmente  com o primeiro casal, porque, logo após ocorrer a desobediência a uma proibição de Deus, Ele os chamou no jardim e  Adão respondeu: “Ouvi o barulho de vossos passos no jardim e tive medo, porque estou nu, e ocultei-me” (Gn 1,8-10).

Claro que toda a linguagem e estrutura do relato tem um caráter mítico (mas mito não é mentira, é uma forma simples de dizer uma coisa difícil de ser explicada).

A estória contada serve para se concluir pela  existência de uma convivência muito amistosa de Deus com os seres humanos.( Isto pelo menos até o momento da tentativa do homem e da mulher  de , sob o influxo da serpente - mais mito! - se arvorarem  em pequenos deuses, tentando estabelecer, eles próprios,  o que entenderiam por bem e o que entenderiam por mal, coisa claramente fora da sua competência).

Outras partes da Sagrada Escritura mostram o desejo de Deus de se relacionar pessoalmente conosco. Por exemplo:

- “ Minha alegria é estar com os filhos dos homens” (Pr 8,31);

-“ Com amor eterno eu te amei”(Jr 31,3).

- Porque de tal maneira  Deus amou o mundo, que enviou seu Filho  Unigênito, para que todo aquele que  nEle crer, não se  perca, mas tenha  vida eterna” (Jo 3,16).

Segundo me parece, estas três  falas identificam o desejo radical, origem mais remota da fé cristã : o desejo de Deus de se relacionar pessoalmente com a criação através de uma criatura-pessoa.

E  Deus dotara o ser humano  do  desejo de conhecer a Deus (sem o que o encontro se tornaria frustrante  ou “sem sal” (encontro de quem ama com quem não ama). É a propósito disso que escreveu Santo Agostinho :

 “Tu nos fizeste para Ti e nosso coração fica inquieto até que repouse em Ti” (Conf I,1).

E é, também, a propósito disso que lemos no salmo 42,3:

“Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo”.

Mas, até um determinado tempo histórico, nós não sabíamos COMO este encontro se daria. Até que o soubemos, por meio de Jesus. Morto, Ele ressuscitou dentre os mortos, mas não como era antes. Sem perder a identidade adquiriu caracteres novos.

De onde vieram estes caracteres novos ? Exatamente da  efetiva união do seu corpo físico com Deus, realizando, assim, no homem Jesus, simultaneamente,  o desejo de Deus e o desejo do ser humano.

A ressurreição é, na essência , a realização simultânea do desejo de Deus e do desejo do ser humano : o perfeito  encontro  pessoal e amoroso  do Criador com a criatura.

Aqui, então, o cristão encontra “a que se destina” o existir: ao perfeito encontro pessoal e amoroso  do Criador com a criatura.

Tudo que o cristão vive, de grande ou de pequeno, de agradável ou desagradável, tudo,  tudo serve a este destino.

A CRENÇA E EXPECTATIVA DESSE ENCONTRO É A CHAVE DE LEITURA DA NOSSA VIDA. É algo como uma lente para ler a vida, como uma clave para se ler uma partitura, como um prumo para garantir a verticalidade, como um nível para  referência de  horizontalidade, como uma planta para se construir o edifício da  vida, como uma chave para abrir uma porta.

Jesus Cristo ressuscitado é a resposta concreta e definitiva à angustiada indagação  inicial, resposta esta que não nos deixa individualmente  do lado de fora do projeto, pois João nos conta, no capítulo 6, 40 esta fala de Jesus :

“Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.”

Agora já temos uma resposta pessoal para a indagação:

“EXISTIRMOS, A QUE SERÁ QUE SE DESTINA?”.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

SOBRE A ARQUITETURA DA FÉ CRISTÃ


Quem olha de fora ( ou até de dentro, mesmo) a fé cristã aparece como algo muito complexo, intrincado  e até confuso.

Afinal, falando de fé cristã estamos falando ou ouvindo falar de igreja, missa, padre, Maria, Cristo, Deus Pai,  Jesus, Espírito Santo, sacramento, novena, medalha, convento, promessa, terço, papa, Vaticano, missões, Bíblia,Sagrada Escritura, código canônico, quermesse, comunidade de base, mitra, comunhão , excomunhão, frade, freira , romaria, perdão , espiritualidade , espiritualidade carmelitana, franciscana, inaciana, beneditina, semana santa, ramos, Corpus Christi, santos , beatos, cônegos monsenhor, sagração , unção , rosário, terço da misericórdia, terço da libertação , teologia da libertação ,  tarde de louvor,  oração de cura, teologia disso e daquilo etc...

E não escrevi nem 0,01% !

Teria esse conjunto um fator que o ordene, que coloque cada um desses elementos no seu devido lugar  e exercendo , na estrutura total, a função a que se destina?

Façamos uma comparação.

Coisa assim se assemelha a uma grande obra arquitetônica onde vemos portas, portais, fachadas, janelas, pisos, escadas, azulejos, pias, setores de chegada, setores de saída, tetos, mesas, cadeiras, telefones, pequenas lojas,  pessoas, elevadores, placas de avisos, bancadas, carros, ônibus,malas, alto-falantes, avisos sonoros, quadros de horários, relógios, filas de pessoas,  táxis ,guardas, guarda-volumes, tickets... por aí afora.  

Ora,assim como esta obra arquitetônica que acabo de referi tem,por trás de si, e em última análise, um desejo (do qual ela, a obra arquitetônica, é a solução), assim também o conjunto de elementos que vemos na fé cristã tem, por trás de si, um desejo.

No caso da comparação , o desejo pode ser expresso da seguinte forma: “Desejo transportar, por via terrestre, muita gente para muitos lugares  e de muitos lugares para cá”. Afinal, aqueles dados da comparação, devidamente ordenados, formam uma Estação Rodoviária. Assim, o desejo subjacente à estrutura da estação rodoviária é a chave do entendimento da própria estrutura.

Então, se quisermos entender bem como se ordena aquela montanha de conceitos que nos vêem à cabeça, quando pensamos na fé cristã, temos que,  primeiro , identificar o desejo subjacente e , em seguida, em que estrutura o desejo encontra sua solução.

Voltemos , então , à primeira lista. Qual seria o desejo fundamental e qual seria o plano arquitetônico que sustenta e ordena os elementos da fé cristã.

De saída já podemos “adivinhar” que tal desejo pertenceu ( ou pertence!) a Deus, já  que Ele  precedeu a tudo que conhecemos.

De fato temos muitas provas disso na Sagrada Escritura. Seleciono  três falas que me parecem sintetizar o desejo que queremos identificar:

- “ Minha alegria é estar com os filhos dos homens” (Pr 8,31);

-“ Com amor eterno eu te amei”(Jr 31,3).

- Porque de tal maneira  Deus amou o mundo, que enviou seu Filho  Unigênito, para que todo aquele que  nEle crer, não se  perca, mas tenha  vida eterna” (Jo 3,16).

Segundo me parece, estas três  falas identificam o desejo radical, origem mais remota da fé cristã : o desejo de Deus de se relacionar pessoalmente com a criação através de uma criatura-pessoa.

Para isso, criou o homem e a mulher e os dotou de algo que a Ele se assemelha (sem o que a comunicação ficaria inviável). Dotou-os também de liberdade ( sem o que o relacionamento pessoal ficaria inviável).

E dotou-os, ainda, do  desejo de conhecer a Deus (sem o que o encontro se tornaria frustrante  ou “sem sal” (encontro de quem ama com quem não ama). É a propósito disso que escreveu Santo Agostinho : “Tu nos fizeste para Ti e nosso coração fica inquieto até que repouse em Ti” (Conf I,1)

Mas, em função da liberdade, sobreveio o acidente de percurso: o mau uso da liberdade, a opção pelo erro (quando relativo a Deus se chama pecado).

Mas o desejo de Deus não foi diminuído. Nem o nosso. Mas o erro desorientou e desorienta, desorganizou e desorganiza, feriu  e fere nossa estrutura pessoal. Fomos hierarquizados, mas já não somos mais. Colocávamos Deus em primeiro lugar e as outras coisas em seus devidos lugares. Mas já não colocamos mais. 

Como encontrar de novo a ordem primitiva, aquela ordem interna e externa desejada pelo Criador?

Deus, ele próprio, defendeu seu desejo. Como alguém disse, poética e fortemente, em um cântico,

“ mas Deus, eterno amor, veio a procura                                                                                                                                                                                                                 e triturou-se em sangue e dor”.   

E o “que veio em nome do Senhor” quis ficar: “Estarei convosco até o fim dos tempos”(Mt 28,20).

(Vê  só ! O processo de Deus é firme. Não desistiu quando aprontamos  nossas doideiras). 

Mas como ficar com tanta gente? Só vivos na Terra somos 7 bilhões (sem os que já se foram e sem os que virão!).Como ficar?

O desejo de Deus é irreversível, não teme nada  e abriu, ante os olhos ingênuos e surpresos dos doze,  um magnífico mistério: o Cristo ressuscitado, o Cristo cósmico que :

-   de modo misterioso mas real o Logos (Verbo) de Deus sustenta cada  coisa do universo (Cl 1, 15-20);                                            

- de modo  misterioso mas real  coincide com o pão e o vinho consagrados : ”Isto é o meu corpo (...) isto é o meu sangue”(Mc 14,22);

 - de modo misterioso mas real está presente no “corpo” da sua Igreja ( Cl 1,18)

OK. Aí está a arquitetura da fé cristã : Deus que nos amou primeiro e tudo providenciou para que todos e cada um de nós o encontrássemos pessoalmente. Todos, porque a Igreja do Cristo ressuscitado vai além dos limites da Igreja-Instituição e congrega todos os que O procuram com o coração reto (os chamados “homens de boa vontade”), estejam eles onde e como estiverem.

Agora, sim, cada coisa daquela primeira lista encontra sua razão de ser e seu lugar próprio, porque, por um caminho identificável o elemento se liga ao eixo, como  as uvas em um cacho se ligam a um cabinho em que se ordenam e de onde tiram sua seiva.

 Provavelmente esta é a razão pela qual São Paulo escreve:

“ seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro; tudo é vosso, e vós de Cristo, e Cristo de Deus”(1Cor 3 ,22-23).

A título de conclusão, mas também como exemplo desses modos de inserção,   podemos nos perguntar a respeito de Maria.

Maria se acha no próprio eixo do processo, já que aceitou ser o meio pelo qual Deus  nos veio ao encontro, tornando-se , efetivamente, o Emanuel (Deus conosco)  . Considerando esta “localização” nenhum ser humano é mais digno e valioso que ela. De certa forma podemos dizer que ela prestou dois  enormes favores : um a Deus, aceitando, livremente, viabilizar Seu desejo; e um à humanidade, criando reais condições para o nosso efetivo encontro com Deus.  Assim o culto a Maria não coincide em natureza com o culto a Deus e se situa abaixo dele, mas clara e justamente se sobrepõe a toda e qualquer outra forma de culto. Foi Deus quem a destacou, não nós.

Similar  exercício podemos fazer com cada elemento da lista: a Igreja, os santos, os anjos , tudo enfim, e podemos nos sentir seguros quanto à adequação de nossas posturas, pois  nos sentiremos orientados. Entenderemos por que via,  por que devoção, por que caminho enfim estamos ligados ao centro de tudo , que é  processo de nosso encontro amoroso com Deus.

A arquitetura da fé cristã tornou-se “visível”,  nós nos tornamos seguros, livres e felizes na prática de receber o amor de Deus e de Lhe retribuir o amor com que somos amados , amando-O em Si mesmo , nas demais pessoas e na sua Criação.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

NÓS ... SOMOS 1, 2 ou 3 ?

É difícil que uma criança se imagine como sendo ela própria composta de
“personalidades”.
Mas é muitíssimo difícil que um adulto se imagine como sendo ele próprio uma só “personalidade”
À medida que a vida passa, nossa experiência vai mostrando que temos por dentro “personalidades” tão fortes que podem chegar até                                  (e paradoxalmente!) agir contra nós. Não por acaso rola a história do “médico e o monstro”.
E as antigas afirmações do poeta latino Ovídio  como as do cristão Paulo são confirmações indiretas do que digo.
Do primeiro sabemos que escreveu:
               ”Vejo as coisas melhores e aprovo, e sigo as piores”
                (Met VII,20).
Do segundo :
               “Não entendo absolutamente o que faço : pois não faço o que  
                quero; faço o que  aborreço”( Rm 7, 15).

Li, em autor atual, que “somos dois, o eu consciente e o  eu inconsciente”, ambos vivos e operantes ... em mim, que me supunha um.
Essa assertiva brotou claramente do insight freudiano.
Mas, olhando mais de perto, veremos que para Freud não somos dois, mas três, já que entendeu que nosso psiquismo (que, afinal, tem significativo mando sobre nosso corpo) funciona com base em 3 elementos: o EGO, o ID e o SUPER-EGO. Nossa experiência diária conosco mesmo parece confirmar constantemente não sei se a verdade mas, pelo menos, a conveniência e praticidade desse enfoque freudiano.
O enfoque cristão do homem / da mulher não contradiz a visão freudiana, mas não teme, consciente dos dados  da experiência e  da fé, considerar um elemento presente em cada um de nós , em   toda a tradição bíblica e, de modo particular, no ensinamento e no comportamento de Jesus Cristo: o senso do sagrado.
Dito de modo mais claro : o homem se constitui do modo descrito por Freud, mas ( e este é o diferencial cristão) tem algo nele de caráter transcendental  (em relação ao nosso mundo de matéria e energia). Este algo opera fundamentalmente como um “chip” que tanto detecta o transcendente quanto cria condições de comunicação com tudo o que é transcendente, criado ou incriado. É  o mesmo que dizer que tal “chip” ( no livro do Gênese referido como “nossa imagem e semelhança”) opera como canal de comunicação  com Deus e com anjos (os bons e os maus).

Então , agora, já seríamos quatro ? Cinco, se computarmos o corpo?

Não! Com certeza! É mais realístico pensar nessas “ partes “ como funções existentes no “EU” e que, em constante interação umas com as outras, estabelecem para “MIM” opções de ação.
Aliado , ontologicamente unido àquelas funções está o nosso corpo físico.
Na prática três “conjuntos”: o corpo, a mente e... o “chip”, tradicionalmente identificado como alma ou espírito. Cada um deles se expressa concretamente por via do desejo. Isso lembra Espinosa, que  considerava que “a essência do homem é o desejo”. Assim, o corpo deseja os prazeres físicos, a mente, os prazeres intelectuais e o “chip” deseja o inefável prazer de encontrar o  Transcendente, Causa Primeira e amorosa de tudo.
Por isso diz o Salmo 43 :
             “Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo”.
Por isso ainda a exclamação-assertiva de Santo Agostinho :
             “ Tu nos fizeste para Ti e  nosso coração (o “chip” desejante ) fica  
               inquieto, até que repouse em Ti” (Conf I,1).

O entendimento cristão do homem supõe a consideração destas partes (funções). O ser humano não pode prescindir dos desejos e será vão o esforço de anulá-los. Mas os desejos não convivem bem uns com os outros, vide os já lembrados Ovídio , São Paulo, a sede do Salmo 43 e a inquietude de coração em  Santo Agostinho. E como insinuam todos eles (reforçados pela nossa própria experiência) não dispomos de força própria para atenuar ou extinguir os conflitos.

O que se pede, então,  como especiais presentes de Deus,  é  :
- o conhecimento de nossos próprios desejos;
- a força para rejeitar os maus desejos que viermos a reconhecer em nós;
- a possibilidade de hierarquizar nossos  bons desejos.

É certo  que Ele no-los dará, ao longo do tempo e na medida em que executarmos o nosso “trabalho” de pedintes.

É assim que, ao longo do tempo, iremos  nos tornando e nos sentindo menos 5, menos 4, menos 3, menos 2 e, finalmente, seremos um ser unificado e harmônico.
Seremos um. E um em união  com Ele.

quarta-feira, 28 de março de 2012

A PÓS-MODERNIDADE E A “PEQUENA VOZ SILENCIOSA” (2ª de 2 partes)

Terminei a 1ª  parte com duas questões:
·       Supondo , então, que queiramos ouvir a “pequena voz silenciosa”, o quê fazer para ouvi-la .
·       E o quê fazer para arregimentar forças e executar o que ela sugere?
Então... vamos lá.
A “pequena voz silenciosa” existe. Não é ficção, é constatável por qualquer um de nós, porque , para ouvi-la, não se exige nenhuma técnica especial. Basta que nos disponhamos a ouvi-la. E tentar ouvi-la é como tentar ouvir um pequeno ruido no interior do carro enquanto o motor está ligado e o carro está em marcha: dispõe-se a ouvir, aguça-se o ouvido e dá-se um tempo.
O mesmo vale para ouvir a “pequena voz”.
Como acontece com no  carro , há  em nossas mentes outros ruídos, frequentemente muito mais ruidosos, de maior amplitude e de maior frequência que as da “pequena voz”.
As  vozes interiores mais ruidosas provêem de nossas paixões : nossa ira, nossa gula, nossa sensualidade, nosso desejo de poder , nosso desejo de influenciar , de impressionar, de julgar etc.
Neste contexto, melhor e mais oportuna que a minha é a fala de Santo Agostinho:
Mas onde vos encontrei para Vos poder conhecer? Vós não habitáveis  na minha memória, quando ainda não Vos conhecia. Onde Vos encontrei , para Vos conhecer, senão em Vós mesmo, que estais acima de mim? Nessa região não há espaço absolutamente nenhum. Quer retrocedamos, quer nos aproximemos de Vós, aí não existe espaço.
Ó  Verdade,  Vós  em toda parte assistis a todos os que Vos consultam e ao mesmo tempo repondeis aos que vos interrogam sobre os mais variados assuntos. Respondeis com clareza, mas nem todos Vos ouvem com a mesma lucidez. Todos Vos consultam sobre o que desejam, mas nem sempre ouvem o que querem. O  Vosso servo mais fiel é aquele que não espera nem prefere ouvir aquilo que quer, mas se propõe  aceitar, antes de tudo, a resposta que de Vós ouviu “ ( Conf liv X, 26).
 São nossas paixões que postulam (às vezes aos gritos) respostas que as satisfaçam.  Mas a audição verdadeira da “pequena voz” passa pela desistência prévia de satisfazer paixões ou qualquer desejo pessoal, isto é o que insinua Santo Agostinho.
Como estamos tratando com  “voz pequena” e, ainda, misturada a outras vozes, a pergunta natural é : como reconhecê-la, como saber se aquela  que “ouço” é ela, e não uma outra, que, por alguma razão, simulou ser a “pequena”?
Sim, temos pistas.
E a primeira é que a “voz” não pode, dentro da lógica da fé , se opor à Palavra de Deus expressa pela via da Sagrada Escritura.Por esse princípio é que Jesus recusou as três vozes que ouviu no deserto.
Depois, é preciso que a orientação dada pela voz se inicie no plano do bem, evolua nele e nele termine. Ou seja, nós sabemos que uma boa orientação (presumida como “da voz”) pode, ao longo do tempo, revelar-se como de outra origem ou  que teve boa origem mas foi deteriorada ou abafada por outra voz.É o caso, por exemplo, da pessoa que se considere inspirada pela “pequena voz” a criar um movimento social bom, legítimo e altruista , mas que, ao longo do tempo acabea por revelar-se  (ou tornar-se) a expressão de um desejo não  controlado de dominar e exercer poder sobre outros.
Além disso, parece haver um critério adicional, reconhecido em todos os tempos,  ao longo da História,  e ao qual alguns  se  dedicaram mais, a estudá-lo e traduzi-lo  em palavras. E, apesar das mais antigas e muito valiosas observações de Evágrio Pôntico (346-400 dC),parece-me que as considerações de Santo Inácio  são particularmente felizes. Resumindo ele diria : a uma audição da verdadeira “pequena voz” segue-se uma consolação (percepção interior de paz, de segurança e de serena alegria interior). Acho que todas as pessoas experientes no ouvir concordam com isso. Mas reforço com a experiência de Santa Tereza d’Ávila, São João da Cruz e (suponho) com o mesmo Ghandi que, certamente por encontrar assim uma paz interior, se comprazia em submeter-se à tirania da “pequena voz silenciosa”.
Agora, outra coisa é ajustar nosso comportamento, nossas ações à pequena voz.
Primeiro, recordemos a parte final do texto de Santo Agostinho:
“ Todos Vos consultam sobre o que desejam, mas nem sempre ouvem o que querem. O  Vosso servo mais fiel é aquele que não espera nem prefere ouvir aquilo que quer, mas se propõe  aceitar, antes de tudo, a resposta que de Vós ouviu “ ( Conf liv X, 26).
Parece-me claro que não é possível tornar nosso modo de agir consistente com o que se “ouviu” sem que se possua,  antes, firme convicção de que é possível “ouvir” a “pequena voz”.
Isto parece bastar!
Pois não basta!
O testemunho dos que vencem as barreiras (sejam os santos, os místicos  de qualquer credo ou  mesmo sem credo, ou simples AA) concordam neste ponto : há que se contar com uma força transcendente à própria pessoa para se colocar o que se “ouviu” num plano de prática. Não é à toa que os AA ( Alcoólicos Anônimos ) defendem a concepção de que a recuperação de um viciado começa pela aceitação de que ele  não pode,  por si só, vencer o vício (passos 2 e 3 dos AA).
Uma força externa precisa entrar em ação. E esta categoria de poder deve estar embutida naquele “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5).
Aplicada esta idéia no plano do real diário, isto costuma ser pensado e dito de outra forma :” Posso tudo por meio dAquele que me dá força”  (Fil4,13).                                                                                                  
 É bom lembrar, também, que essa força (todos os santos, místicos e AA concordam) não é passível de manipulação. De nenhum modo se sujeita à minha vontade e só ajudará com uma condição:  que tenhamos,no pedir sua ajuda, reta intenção (como diria o Buda).
Ficamos  então com o seguinte resumo:
- posso, sim, ouvir a “pequena voz silenciosa”, desde que, conscientemente, faça ouvidos de mercador  ao vozerio que rola dentro e fora de mim;
- posso ,sim, fazer o que me sugere a “pequena voz silenciosa”, desde que esteja convicto de tê-la “ouvido” e que tenha pedido  sinceramente à força externa ( Deus) que me capacite para a execução do que me foi sugerido.
Parece, então,  ser possível a tranquilidade da alma em meio à geral turbulência do mundo atual.
Mais. Assim, tranquilo,  posso descobrir meu próprio modo ideal de viver e de ser  útil à causa da vida.

domingo, 18 de março de 2012

PÓS-MODERNIDADE E A “PEQUENA VOZ SILENCIOSA” ( 1ª parte de duas)

Aquela antiga  história dos cegos, empenhados em conhecer como era um elefante, contém, entre outras, uma verdade muito útil: cada coisa pode ser vista a partir de muitos ângulos diferentes.
O que temos chamado de pós-modernidade é assim, como o elefante da historinha. E nós, como os cegos da historinha, temos que abordar o elefante (a pós-modernidade) por mais de um caminho.
 Um enorme contingente de “cegos” milita nesse esforço.

A que se chega?

Primeiro é preciso reconhecer que com ou na  pós-modernidade vieram enormes vantagens, principalmente na área de saúde física, na comunicação e de  tecnologia em geral.
 O problema decorre das outras coisas que vieram no mesmo pacote.

Fiz uma pequeno inventário (incompleto e sem intenção de ordem, certamente) das atuais “conclusões “.
A pós-modernidade parece ter características como :
- líquidez, conforme o conceito de liquidez defendido por Z.Bauman;
- não solidária ou individualista;
- acentuação da desigualdade social;
- tirania do consumo;
- massificação da arte e da cultura;
- holocausto (várias formas de genocídio);
- esgarçamento das relações afetivas;
- declínio do espaço público;
- pressa;
- superficialidade;
- falta de compaixão;
- liberalização de costumes;
- flexibilização de relações humanas;
- descontrole de mercados;
- esmagamento de crenças e lealdades etc


Então, entre os muitos que se interessam e se empenham no esforço de entender nosso momento histórico, estou eu, cá do meu ângulo, olhando a pós-modernidade. E é claro que concordo com praticamente todas as observações que listei e minha impressão sobre a importância de cada item tem variado  bastante. Mas alguns deles parecem polarizar outros. Por exemplo :  a chamada tirania do consumo agrega em torno de si outras características no nosso tempo : superficialidade, culto do corpo, falta de solidariedade...
Ou seja, uma coisa chama outras, estas  chamam outras ainda, e o processo acaba por formar uma intrincada  rede que nos confunde na análise e  nos desorienta  na ação. Por fim, a própria confusão e desorientação terminam por, ironicamente, constituir  uma outra característica da época.
E como o consumo, outros tiranos disputam nossa submissão

Me pergunto:  haveria alguma bússola  p’ra se navegar nessa intrincada rede?
Bem... pensando nisso lembrei-me de uma interessante fala  de Ghandi :

 “O único tirano que aceito neste mundo é a pequena voz silenciosa que há dentro de mim”.

Ghandi assim rejeita todas as demais tiranias. Deduz-se que ao ser acuado por alguma (s) outra (s) forma(s) de tirania, ele se lembrava e aguçava os ouvidos para  ouvir a “pequena voz silenciosa”.
Que bela liberdade  essa do  homem que pode sofrer tiranias de outros mas que, voluntariamente, só aceita um  tirano, aliás, tirana , pequena e silenciosa, mas boa e forte o suficiente para encher de ânimo e força um homem como Ghandi.

Quem é ela?

Ser-lhe-ão  dados diferentes nomes, no Oriente e no Ocidente, e em todas as épocas. Uns a chamarão consciência, outros (como Evagrio ) a conceberão como “bom pensamento”, outros (como Sêneca e Santo Inácio) falarão de um espírito bom, outros (como São Paulo e Elizabete da Trindade ) insistirão na inabitação da Trindade em nós.
Mas nos  importa o seguinte : a “pequena voz silenciosa” existe e, fraca e silenciosa, é a única que, retraída mas sem medo, se propõe a nos guiar  nos mares das múltiplas tirania do nosso tempo.
Porém, parece-me que na pós-modernidade não é usual ouvi-la. Pode estar abafada por vozes mais potentes ( gritaria maior do consumo, do poder, da sensualidade...) ou pode ser que  as pessoas estejam aguardando  sua validação científica ou ainda que simplesmente tenhamos (diferentemente de Ghandi) optado pela sujeição a outras tiranias.

A partir do ângulo cristão de visão da realidade, a “ pequena voz silenciosa ” se identifica com a presença do Espírito Santo em nós. A assertiva de Jesus não deixa margem de dúvida : “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada” (João 14, 23).

Supondo , então, que queiramos ouvir a “pequena voz silenciosa”, o quê
fazer para ouví-la ?

E o quê fazer para arregimentar forças para executar o que ela sugere?